quarta-feira, 9 de abril de 2008

O Fantasma da Castração


Definir o que é masculino e feminino parece fácil, mas provavelmente quaisquer que sejam as características que associemos aos dois sexos, as mesmas resultam muito mais da herança cultural que suportamos do que das características biológicas dos mesmos.
A mulher é bela e graciosa.
Algumas são-no indiscutivelmente. Mas para além de eu conhecer muitas mulheres que não se inserem de todo nestas características alegadamente femininas, duvido que as mulheres pré-históricas devessem muito à beleza ou graciosidade (e já agora, se visitarmos algumas aldeias do interior ainda encontramos senhoras de bigode farto com uma beleza e graciosidade que fariam, à maioria dos homens, ganhar o título de Miss Mundo!).
Os homens são fortes e corajosos.
Alguns dizem que sim, mas para além da História estar recheada de exemplos de heroísmo feminino (Joana d’Arc ou a lusitana Padeira de Aljubarrota), quantos de nós, homens actuais, estaríamos dispostos a repetir esses feitos gloriosos das Mães-Coragem da História? (Eu não, seguramente…).
Essencialmente o que distingue um homem duma mulher?
O seu sexo biológico, naturalmente.
Mas masculinidade ou feminilidade são coisas muito diversas de ser simplesmente de sexo masculino ou feminino.
Nascer com um pénis atribui ao indivíduo o sexo masculino, mas fará dele um homem, social e psicologicamente?
O mesmo se dirá das mulheres. Nasce-se mulher, mas as características da feminilidade adquirem-se posteriormente.
Weininger, psiquiatra austríaco contemporâneo de Freud, concluiu na sua polémica obra “Sexo e Carácter”que tornar-se mulher é muito mais fácil do que a aquisição da virilidade: esta última nunca é definitivamente adquirida, e deve ser constantemente (re)conquistada, sob pena de ver a feminilidade recuperar terreno.
No fundo o que os psiquiatras nos dizem é que é mais fácil aprender a ser feminino do que masculino. Isto porque numa sociedade patriarcal, como a nossa, a feminilidade está associada a aspectos passivos enquanto a virilidade implica comportamentos activos e permanentes.
Esta visão simétrica e binária é particularmente evidente em Freud, que teve ainda o mérito de ser o primeiro a chamar a atenção para a dificuldade de definir masculino e feminino, na medida em tais condições não se submetem à realidade anatómica, antes se subordinam a resultados de processos bem mais complexos que as determinações instintivas.
Aprender a ser mulher, no contexto social em que vivemos, é sobretudo um exercício de contenção: na linguagem, no comportamento, na iniciativa, na preservação da imagem, da família, dos valores.
Já ser um homem, no mesmo contexto, implica demonstrar por actos e perante a sociedade que somos merecedores do pénis com que nascemos. Há que exibir coragem, capacidade de sobrevivência, inteligência, sedução, desprezo pela morte e pelo processo de envelhecimento.
Qualquer falha na exibição pública das características marcadamente masculinas implica castração social.
O humor, nomeadamente, vive muito deste fenómeno. Assumir cobardia, ignorância ou medo, por parte de um homem, provoca hilariedade. Precisamente porque são comportamentos infantis (e por isso femininos), desconformes com o que seria expectável de um indivíduo adulto, pós-iniciado nos rituais da masculinidade, numa sociedade patriarcal.
Não é por acaso que a antropologia é rica em observações que mostram que o trajecto em direcção à masculinidade deve ser construído. O que é feito através de rituais próprios a cada cultura, com o risco de perder esta masculinidade sempre presente.
Mesmo na sociedade moderna os rituais de iniciação são patentes, por vezes de forma bastante aproximada da verificada nas tribos africanas ou asiáticas. Veja-se a recruta militar, por exemplo, com toda a crueldade e disciplina imposta. Não é mais do que um ritual iniciático que visa assegurar a virilidade do mancebo e expurgar dele qualquer traço de feminilidade.
Assim a feminilidade confunde-se bastante com a infantilidade. Ser mulher é passivamente manter a pureza infantil. Não sofrer a pressão social de ter de mostrar coragem, inteligência ou indiferença perante o medo. A mulher passa da protecção dos pais à do marido, pelo que se mantém sempre numa posição de dependência.
Não quer dizer que as mulheres não sejam corajosas ou inteligentes. Na verdade a mulher, cada vez menos passiva, tende a assumir um crescente protagonismo na nossa sociedade, fruto de progressivas conquistas ao poder patriarcal.
Mas a inteligência ou a coragem na mulher são notáveis, ao passo que no homem são supostamente assumidas como naturais.
Pelo contrário um homem ignorante ou cobarde é que é notável, pela negativa. A ignorância ou cobardia nas mulheres são assumidas como características femininas, logo não assinaláveis.
Sob o prisma sexual esta assumpção cultural dos valores masculinos e femininos tem consequências evidentes. Uma mulher demasiado independente assume contornos de lésbica e assusta os homens, incapazes de rivalizar com a sua inteligência ou iniciativa. Por outro lado um homem demasiado sensível ou que manifeste excessivos cuidados com a sua aparência é tido por homossexual e discriminado por ambos os sexos.
Mais do que a orientação sexual do indivíduo, a qual é assumida de forma privada e distante dos olhares de todos, o que é difícil de digerir socialmente é o comportamento público não padronizado. Se um homem é homossexual e prefere sexo com outros homens é problema dele. Mas se ele insiste em assumir publicamente comportamentos femininos (mesmo que, por hipótese, seja heterossexual) torna-se notável, configurando uma agressão à sensibilidade dos restantes.
O mesmo se dirá da mulher. Uma mulher machona, que se veste como um homem e adopta comportamentos marcadamente masculinos vai suscitar desconforto e recriminação na sua vivência social, provenientes de ambos os sexos e independentemente da sua orientação sexual.
Não admira portanto que, com toda esta pressão social, seja sobre os homens que recai a maior fatia de disfunção, psicológica, social, sexual, etc.
Sob esta perspectiva a mulher tem uma passagem relativamente pacífica à idade adulta, bastando-lhe frequentar meios femininos e adquirir os seus valores, aguardando tranquilamente a iniciativa do homem, pós-iniciático, no sentido do acasalamento.
O homem, pelo contrário, nasce feminino, no sentido em que, apesar de possuir um pénis, está totalmente dependente de terceiros para a sobrevivência. O crescimento do rapaz faz-se precisamente pelo progressivo abandono dos valores femininos, adquiridos no seio da sociedade familiar matriarcal, e a assumpção dos masculinos que vai adquirindo com o pai, os amigos e os restantes homens com quem contacta socialmente.
Esta transição é difícil e complexa.
Os vestígios da feminilidade infantil estão sempre presentes e são dolorosamente recalcados em detrimento de características alegadamente masculinas, impostas pela sociedade, e fundamentalmente opostas.
O rapaz tem de ultrapassar toda a aprendizagem infantil e (re)aprender a ser homem, isto é, a ser corajoso, a ter iniciativa, a não ter medo, a sobreviver na “selva” social em que está inserido, características que lhe foram marcadamente reprimidas na infância.
Com todas estas dificuldades, não espanta que muitas aprendizagens sejam mal resolvidas, originando um extenso catálogo de disfunções psicológicas, sociais e sexuais nos homens, que a ciência apenas recentemente e de forma ainda tímida se atreve a aflorar (estando longe de as resolver, na maioria das vezes).
Possuir um pénis numa sociedade patriarcal, mais do que um privilégio, transforma-se num enorme encargo. É preciso viver de acordo com essa condição, provando a cada dia que se é merecedor do mesmo!
Sempre sob o fantasma da castração.

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